Para quem mora próximo à fronteira com a Venezuela em Roraima, a divisão entre os dois países faz parte da rotina. Em Pacaraima, município localizado no extremo norte do estado, o movimento de pessoas, mercadorias e veículos influencia o comércio, os serviços públicos e a organização da cidade.
A fronteira terrestre também aproxima comunidades que mantêm relações econômicas, familiares e culturais. Do lado brasileiro, a cidade venezuelana de Santa Elena de Uairén é um dos principais pontos de referência para moradores, comerciantes, trabalhadores e viajantes que circulam pela região.
Uma cidade organizada em torno da fronteira
Pacaraima funciona como uma porta de entrada para o Brasil. A rotina local é influenciada pelo controle migratório, pela fiscalização aduaneira e pela atuação de órgãos públicos responsáveis por saúde, documentação, segurança e assistência social.
A presença desses serviços é percebida no dia a dia, especialmente nas áreas próximas aos pontos de atendimento e às rodovias. A Receita Federal mantém uma unidade no município voltada a assuntos de comércio exterior e aduana, enquanto estruturas federais atuam na recepção e no encaminhamento de migrantes.
O movimento na fronteira também afeta o comércio. Estabelecimentos vendem alimentos, combustíveis, roupas, itens de higiene e outros produtos procurados por brasileiros e venezuelanos. A circulação de consumidores de diferentes nacionalidades faz com que o espanhol seja comum nas ruas e nos estabelecimentos comerciais.
O impacto da migração venezuelana
Desde o agravamento da crise na Venezuela, Pacaraima passou a lidar com uma demanda maior por serviços públicos e assistência humanitária. A Operação Acolhida, iniciada em fevereiro de 2018, foi estruturada para organizar a entrada, oferecer acolhimento e promover a interiorização de migrantes e refugiados.
Na prática, isso significa que moradores convivem com abrigos, postos de triagem, equipes de saúde, servidores públicos, militares e organizações de apoio. O município se tornou a primeira parada de muitas pessoas que chegam ao Brasil por terra antes de seguirem para Boa Vista ou para outras cidades.
Em agosto de 2026, o Ministério da Justiça informou que acompanhava, em Pacaraima, estruturas de recepção, identificação, triagem, acolhimento e proteção destinadas a migrantes e refugiados. A presença desses serviços integra o cotidiano da cidade e exige coordenação permanente entre União, estado e município.
Desafios para quem vive na região
A proximidade com a fronteira oferece oportunidades econômicas, mas também impõe desafios. A cidade precisa responder a variações no fluxo migratório, à pressão sobre saúde, educação, transporte, segurança e assistência social, além das dificuldades próprias de uma área distante dos grandes centros urbanos.
O fluxo não é constante. Ele pode aumentar ou diminuir de acordo com a situação econômica e política da Venezuela, as regras de entrada nos países e as condições de transporte. Em janeiro de 2026, o governo federal informou que as entradas registradas nos primeiros 13 dias do ano haviam caído mais de 50% em relação ao mesmo período de 2025.
Assim, morar perto da fronteira significa acompanhar mudanças que ultrapassam os limites do município. A rotina de Pacaraima combina características de uma cidade brasileira do interior amazônico com as demandas de um corredor internacional, onde comércio, migração, serviços públicos e relações entre comunidades se encontram diariamente.








