O traçado urbano de Boa Vista, capital de Roraima, chama atenção pela organização pouco comum entre as cidades brasileiras. No centro da cidade, avenidas largas e retas se distribuem a partir da Praça do Centro Cívico Joaquim Nabuco, formando um desenho radial que lembra um leque.
Mais do que uma característica visual, o formato revela uma decisão de planejamento urbano tomada em um período de transformação política e territorial da região. O plano foi elaborado pelo engenheiro civil Darcy Aleixo Derenusson entre 1944 e 1950, durante o governo do então território federal de Roraima. Estudos reunidos pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) apontam a praça cívica como o ponto central da proposta. (portal.iphan.gov.br)
Um centro a partir do qual a cidade se organiza
O elemento mais marcante do projeto é a convergência das principais vias para o Centro Cívico. A partir desse núcleo, as avenidas se espalham em diferentes direções e são complementadas por vias perimetrais, responsáveis por conectar os setores da cidade.
Esse modelo facilita a leitura espacial do centro de Boa Vista. Ao contrário de cidades que cresceram de maneira mais irregular ao redor de caminhos antigos, a área central da capital roraimense foi concebida para expressar ordem, hierarquia e integração entre os espaços públicos.
A Praça do Centro Cívico também concentra funções simbólicas e administrativas. O entorno reúne edifícios ligados aos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, além de equipamentos culturais, monumentos, igrejas e áreas de convivência. A praça, cujo nome oficial é Joaquim Nabuco, tornou-se o principal ponto de referência do desenho urbano. (boavista.rr.gov.br)
Influência do urbanismo moderno
O plano de Boa Vista dialoga com modelos de cidades planejadas e com concepções urbanísticas que valorizavam grandes eixos, perspectivas abertas e espaços públicos monumentais. O resultado foi a criação de uma estrutura urbana que buscava organizar o crescimento da capital e reforçar a presença do poder público em uma área estratégica da Amazônia.
A implantação do projeto ocorreu sobre um núcleo urbano que já existia. Por isso, o planejamento não significou a substituição completa da cidade anterior. Conforme registros analisados pelo Iphan, uma das preocupações atribuídas a Derenusson foi preservar construções e referências preexistentes, mantendo parte da memória local durante a modernização do espaço urbano. (portal.iphan.gov.br)
Por que o formato ainda é percebido hoje
A geometria do plano permanece visível principalmente na região central, onde avenidas como Ville Roy, Glaycon de Paiva e Benjamin Constant ajudam a revelar a estrutura radial. A combinação entre vias amplas, áreas abertas e edifícios públicos reforça a sensação de que a cidade foi desenhada a partir de um ponto central.
O crescimento de Boa Vista, no entanto, ampliou a ocupação para além do traçado original. Novos bairros passaram a apresentar configurações diferentes, acompanhando a expansão populacional e as mudanças nas formas de ocupação do território. Ainda assim, o desenho do centro continua sendo uma das principais marcas urbanas da capital.
É essa combinação entre história, planejamento e identidade visual que explica por que o traçado urbano de Boa Vista desperta interesse. O formato em leque não é apenas uma curiosidade vista em mapas ou imagens aéreas: ele registra uma etapa decisiva da formação de Roraima e permanece integrado à paisagem cotidiana da cidade.







