A presença de venezuelanos passou a fazer parte do cotidiano de Boa Vista, capital de Roraima, especialmente após a intensificação do fluxo migratório entre os dois países na década de 2010. A proximidade com a fronteira, os vínculos históricos entre as populações e a busca por trabalho e melhores condições de vida fizeram da cidade um dos principais pontos de chegada e permanência de migrantes venezuelanos no Brasil.
Com o passar dos anos, essa presença deixou de estar restrita aos serviços de acolhimento e passou a ser percebida em diferentes áreas da vida urbana. A influência aparece na alimentação, no comércio, na prestação de serviços, no mercado de trabalho e nas relações sociais estabelecidas entre brasileiros e venezuelanos. (scielo.br)
Gastronomia venezuelana ganha espaço
Entre as mudanças mais visíveis está a popularização de pratos típicos da Venezuela. Arepas, tequeños, empanadas e outros alimentos passaram a ser vendidos em restaurantes, lanchonetes, feiras e por empreendedores que trabalham sob encomenda.
A comida se tornou uma das principais formas de preservação da identidade cultural dos migrantes e também de aproximação com os moradores de Boa Vista. Para muitos venezuelanos, abrir um pequeno negócio de alimentação representa uma maneira de gerar renda, manter tradições e apresentar seus costumes ao público local.
Estudos sobre a migração venezuelana na capital roraimense identificam a circulação de alimentos como uma prática importante de convivência e integração. A preparação, a venda e o compartilhamento de comidas ajudam a criar vínculos entre pessoas de diferentes origens. (scielo.br)
Novas relações no comércio e no trabalho
A presença venezuelana também alterou a dinâmica do comércio de Boa Vista. Migrantes passaram a atuar em restaurantes, salões de beleza, lojas, serviços de entrega, construção civil e atividades informais. Parte deles também criou pequenos empreendimentos, movimentando setores como alimentação, estética e comércio de produtos.
Esse processo, no entanto, ocorreu em meio a dificuldades. Muitos trabalhadores enfrentaram barreiras relacionadas ao idioma, à validação de documentos, à falta de contatos profissionais e à necessidade de aceitar empregos abaixo de sua formação original. Pesquisas sobre o mercado de trabalho roraimense mostram que a imigração modificou a realidade das empresas e a composição da mão de obra em Boa Vista. (revista.ufrr.br)
Idioma e cultura dividem os mesmos espaços
O espanhol passou a ser ouvido com mais frequência em ruas, estabelecimentos comerciais, escolas e serviços públicos. Ao mesmo tempo, muitos venezuelanos incorporaram expressões em português e adaptaram hábitos à rotina local.
A convivência também aproximou manifestações culturais dos dois países. Música, culinária, modos de sociabilidade e referências familiares passaram a ocupar os mesmos espaços, sem apagar as diferenças entre as comunidades. Em Boa Vista, a integração ocorre de forma gradual e desigual, marcada tanto por trocas culturais quanto por desafios sociais.
A transformação do cotidiano boa-vistense não significa a substituição da cultura local, formada por influências indígenas, nordestinas e amazônicas. O que se observa é a incorporação de novos elementos a uma cidade que historicamente recebeu pessoas de diferentes regiões e países.
Uma cidade marcada pela fronteira
A influência venezuelana em Boa Vista revela como os movimentos migratórios podem alterar a vida de uma cidade de fronteira. Mais do que um fenômeno demográfico, a chegada de novos moradores produziu mudanças nas relações de trabalho, nos hábitos de consumo e nas formas de convivência.
Esse processo continua em construção. A presença venezuelana já integra a paisagem social da capital de Roraima, enquanto brasileiros e migrantes seguem criando novas formas de compartilhar espaços, oportunidades e referências culturais.








