quarta-feira, 4 de novembro de 2026
CIDADES

Viver em Pacaraima: como é o cotidiano na fronteira entre Brasil e Venezuela

Pacaraima, no norte de Roraima, é marcada pela proximidade com a Venezuela, pelo comércio de fronteira, pela presença de povos indígenas e pela atuação da Operação Acolhida.

Viver em Pacaraima é conviver diariamente com a fronteira entre Brasil e Venezuela. Localizado no extremo norte de Roraima, o município tem uma rotina influenciada pelo trânsito de pessoas, pelo comércio internacional, pela presença de povos indígenas e pelos serviços voltados a migrantes e refugiados.

Com 19.305 habitantes no Censo 2022, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Pacaraima reúne características de uma cidade pequena, mas exerce uma função estratégica para o país. O município está ligado a Santa Elena de Uairén, na Venezuela, e funciona como uma das principais portas terrestres de entrada no Brasil pelo Norte. (ibge.gov.br)

Uma cidade pequena com circulação internacional

A vida local é marcada por uma circulação que vai além do número de moradores. Venezuelanos atravessam a fronteira em busca de atendimento, trabalho, documentação ou novas oportunidades. Brasileiros também se deslocam para a Venezuela por motivos comerciais, familiares e turísticos.

Essa movimentação influencia o comércio, o transporte e a procura por serviços públicos. Ao mesmo tempo, a distância em relação a Boa Vista e a baixa densidade populacional tornam mais complexa a oferta de saúde, educação, assistência social e abastecimento em escala compatível com as demandas da região.

O peso da migração venezuelana

Desde a intensificação da crise venezuelana, Pacaraima passou a ocupar posição central na resposta humanitária brasileira. Em 2018, o governo federal criou a Operação Acolhida, estruturada em três frentes: ordenamento da fronteira, acolhimento e interiorização de migrantes e refugiados para outras partes do país. (gov.br)

Na prática, isso levou à instalação de estruturas de recepção, identificação, triagem e encaminhamento. Pessoas em situação de vulnerabilidade podem ser direcionadas a abrigos, receber orientação documental e participar de programas de interiorização. A estratégia busca reduzir a pressão sobre Roraima e ampliar as possibilidades de integração em outros estados. (gov.br)

Para os moradores, a presença desse fluxo altera a dinâmica da cidade. O atendimento público precisa lidar com diferentes idiomas, documentos, demandas de saúde e situações de vulnerabilidade. A imigração também movimenta serviços, organizações sociais e atividades comerciais, mas pode aumentar a pressão sobre estruturas já limitadas.

Cultura indígena e identidade local

A fronteira não é formada apenas por postos de controle e estradas. O território de Pacaraima tem presença histórica de povos indígenas, incluindo Macuxi, Taurepang e Wapichana. Essas comunidades fazem parte da formação social e cultural do município e mantêm relações que atravessam as divisões políticas entre os dois países. (pacaraima.rr.gov.br)

Essa dimensão ajuda a explicar por que a região não pode ser compreendida apenas como um corredor migratório. Há também modos de vida, vínculos familiares, circulação tradicional e disputas relacionadas ao uso da terra e ao acesso a políticas públicas.

Desafios de morar na fronteira

O cotidiano em Pacaraima combina oportunidades e limitações. A posição estratégica favorece o comércio e aproxima culturas, mas a cidade enfrenta desafios de infraestrutura, oferta de serviços e dependência de decisões tomadas em outras esferas de governo.

Assim, viver em Pacaraima significa estar em um espaço onde questões nacionais e internacionais fazem parte da rotina local. A fronteira aparece no trabalho, nas compras, nos sotaques, nos atendimentos públicos e nas relações entre brasileiros, venezuelanos e povos indígenas. É essa combinação que dá ao município uma identidade própria dentro de Roraima e do Brasil.